A história nos convoca. O futuro nos compromete.
Há momentos em que a história parece chamar novamente aqueles que nunca desistiram de transformá-la. Em 1968, milhares de jovens ocuparam as ruas do Rio de Janeiro na histórica Passeata dos Cem Mil. Ao lado de professores, artistas e trabalhadores, enfrentaram o silêncio imposto pela ditadura e reivindicaram liberdade, direitos e educação. Mais de meio século depois, em circunstâncias distintas, novas gerações voltam a ocupar as ruas, trazendo consigo inquietações que atravessam o tempo, como o futuro que queremos construir e em que educação ele pode se ancorar.

A Associação dos Docentes da PUC Minas (ADPUC Minas) nasceu justamente de um desses momentos em que a esperança precisou se transformar em ação. Fundada em 1985, no alvorecer da redemocratização brasileira, a ADPUC Minas carrega, há mais de quatro décadas, a convicção de que ensinar é um compromisso dos mais importantes com a sociedade. Aprendemos, ao longo desse percurso, que nenhuma conquista é definitiva e que a democracia precisa ser cultivada também nas salas de aula, nas relações de trabalho e nas instituições.
Como lembrou a ex-reitora da UFMG, Sandra Regina Goulart Almeida, durante o encontro Universidade e Democracia: 40 anos de redemocratização do Brasil, promovido pela ADPUC Minas em 2025, ano em que a Associação também celebrou quatro décadas de história, a universidade mantém uma ligação profunda com os ideais de liberdade que inspiraram os inconfidentes mineiros. O conhecimento, a razão, a autonomia e o sonho de um país livre percorreram os séculos e continuam vivos nas universidades e nas vozes dos jovens que hoje ocupam as ruas.

É à luz desse compromisso histórico que acompanhamos com preocupação as propostas econômicas atribuídas à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) e seus possíveis impactos sobre a educação, a ciência e os direitos sociais.
Em um país ainda marcado por restrições orçamentárias, nossas universidades, institutos e escolas públicas e privadas precisam de investimentos, assistência estudantil e condições dignas de trabalho.
Essa preocupação se amplia diante da financeirização da educação, da concentração do ensino em grandes grupos empresariais e da expansão de plataformas digitais. A educação não pode ser reduzida à lógica da mercadoria, nem o conhecimento subordinado ao lucro.
Também merecem atenção as propostas atribuídas a Flávio Bolsonaro, como a expansão das escolas cívico-militares, o financiamento por resultados e a transferência das universidades federais do MEC para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, especialmente quanto aos seus possíveis efeitos sobre a autonomia e o financiamento das instituições.
Não existe educação de qualidade sem valorização de quem ensina, assim como não existe liberdade acadêmica onde prevalecem o medo e a intimidação.
Episódios envolvendo confrontos entre agentes políticos que atacaram integrantes da comunidade acadêmica que participavam de manifestações favoráveis à reeleição do presidente Lula, como os relatados na Univasf e na UESC, reforçam a necessidade de proteger a liberdade de expressão, o pluralismo de ideias e o direito de ensinar e aprender, princípios assegurados pela Constituição Federal.

Por isso, defender a Constituição é também reafirmar o compromisso com a paz, o diálogo e a não violência. Os ataques de 8 de janeiro de 2023, que fizeram parte da tentativa bolsonarista de ruptura da ordem democrática, permanecem como um alerta sobre os riscos do autoritarismo e a fragilidade das conquistas quando deixam de ser defendidas.
O voto também faz parte dessa defesa: não é um gesto isolado, tampouco uma escolha sem consequências. Suas repercussões atravessam as salas de aula, as condições de trabalho, os direitos sociais e o futuro das próximas gerações.
Que saibamos ouvir as vozes das juventudes que hoje ocupam as ruas e reconhecer nelas o eco de um antigo sonho de liberdade, que atravessa gerações e permanece vivo nas universidades e nos espaços de participação coletiva.
ADPUC Minas
Associação dos Docentes da PUC Minas
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